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Opinião: Caso Ana Clara no debate entre Lula e Flávio exige cuidado com exposição da mãe e respeito ao luto

Publicado por: Amanda Escorsin | 24 out 2026

Cristiane Gomes da Silva busca justiça pela filha e relata ataques após repercussão; abordagem pública deve preservar sua autonomia e evitar que a tragédia seja reduzida à disputa eleitoral

A presença de Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes Machado, no debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23/10), colocou novamente a morte da menina no centro da disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Convidada pela campanha petista, ela acompanhou a discussão sobre a atuação do senador na defesa do policial acusado de matar sua filha, aos cinco anos, em 2021.

Lula questionou a participação do adversário no processo. Flávio, por sua vez, dirigiu-se à mãe, lamentou a morte e afirmou confiar que o policial não efetuou o disparo. Durante a fala, confundiu o nome de Cristiane com o da filha. O acusado ainda não havia sido julgado, e sua defesa sustenta a inocência.

Mãe relata sofrimento e ataques após repercussão

Em entrevista publicada pela Agência Pública em 19 de outubro, Cristiane descreveu o sofrimento provocado pela perda e pela espera por uma resposta judicial. Também relatou ataques nas redes sociais e disse que algumas pessoas passaram a interpretar sua busca por justiça como uma tentativa de prejudicar eleitoralmente Flávio Bolsonaro.

“As pessoas não enxergam que sou uma mãe que perdeu uma filha”, afirmou. Na mesma entrevista, deixou claro que deseja continuar denunciando o caso e impedir que a história de Ana Clara seja esquecida. Sua manifestação reúne, portanto, sofrimento com a exposição e uma decisão própria de buscar visibilidade.

O que a psicologia orienta sobre exposição e trauma

Uma publicação da Associação Americana de Psicologia (APA), com orientações da pesquisadora de trauma Elana Newman e do Dart Center para Jornalismo e Trauma, destaca que entrevistas com pessoas atingidas pela violência precisam considerar diferenças de poder e possíveis sentimentos de ansiedade e perda de controle.

A orientação também reconhece que contar a própria história pode trazer apoio, reconhecimento e recursos. Por isso, a exposição não deve ser considerada automaticamente prejudicial: é fundamental que a pessoa tenha espaço para decidir como deseja participar e conduzir seu relato. Essas são recomendações gerais, não uma avaliação clínica de Cristiane.

Responsabilidade vale para PT, PL e cobertura jornalística

Aplicadas ao contexto eleitoral, essas orientações apontam para um cuidado: a história de uma criança morta e a dor de sua família não devem ser reduzidas a instrumentos de ataque ou defesa de candidaturas. Essa é uma reflexão editorial baseada nos princípios de cuidado com pessoas afetadas por trauma, e não uma conclusão sobre as intenções dos envolvidos.

Ao PT, que levou Cristiane ao debate e questionou a atuação de Flávio, cabe preservar o protagonismo da mãe e manter o compromisso com sua demanda além da eleição. Ao candidato do PL, cabe responder aos questionamentos sobre sua atuação jurídica sem minimizar a perda ou desqualificar a busca da família por justiça. À imprensa e aos apoiadores de ambos, cabe evitar ataques, exposição desnecessária e afirmações que antecipem o resultado do julgamento.

A cobrança pública sobre segurança e responsabilidade de agentes políticos tem interesse jornalístico. O cuidado está em manter Cristiane como uma pessoa com voz, escolhas e necessidades próprias, inclusive o direito de falar, estabelecer limites ou deixar de participar da exposição.

Da Redação | Portal Dama do Poder

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Amanda Escorsin

Amanda Escorsin é jornalista, empresária e fundadora da Rede Damas do Poder. Formada em Comunicação Social – Jornalismo pelo UniCEUB, atua na cobertura de política, empreendedorismo e desenvolvimento institucional. É editora-chefe do Portal Dama do Poder e ex-diretora de redação do Portal Lupa Política. Idealizadora da Rede Damas, lidera um movimento que promove conexões entre mulheres, lideranças, empresas e o poder público, incentivando o empreendedorismo, a comunicação estratégica e o protagonismo feminino.